domingo, 30 de agosto de 2009

A vinda da ida


Correndo o risco de parecer uma pessoa de idade avançada devo dizer que a vida me ensinou (infelizmente, se calhar) a não acreditar nas coisas até elas realmente acontecerem. Foi assim que passei o meu Verão, em negação profunda, porque apesar de saber que já estava tudo tratado e que era tarde demais para voltar atrás, a minha curta experiência de vida ensinou-me a não criar expectativas, quer no que toca a pessoas quer em situações. De facto, eu, tal como muitas pessoas, não acreditava totalmente que fosse capaz de tamanho salto. E assim recusei-me a acreditar que podia aqui estar.

Os dias antes da partida foram muito estranhos, não conseguia ver o fim da linha, não me imaginava no dia seguinte longe da minha cama, das minhas pessoas, do meu cobertor de segurança. Não estava triste nem contente, não sei se os sentimentos de euforia e medo se juntavam e anulavam na minha apatia ou se simplesmente não sentia nada.

Só quando abracei a minha irmã no aeroporto é que percebi, tínhamos estado ambos em negação, mas aquele momento tornou-o real. Foi assim meio atordoado que fiz o meu check-in e paguei a minha muito overpriced bagagem. Não fosse pela simpatia e carinho das caras conhecidas que encontrei no aeroporto teria chegado assim mesmo, atordoado. Em vez disso entrei naquele estado de acalmia e conforto a que costumo chamar: apetece-me ser simpático com toda a gente (o que é bom for a change). Sim, o inglês está-se a tornar dominante. Um outro facto que muito contribuiu para esse estado, no meu entender, foram duas das pessoas que comigo partilharam a viagem de avião e que naquela altura de insegurança significaram para mim uma possibilidade de futuro e um sinal de esperança (apesar do meu cepticismo, tenho esta tendência, vestígios de devoção religiosa quem sabe, para funcionar por sinais e interpreta-los, ao ponto de eles conseguirem alterar o meu humor). Mas naivismos à parte, foi com um renovado sentimento de confiança que aterrei.

As pessoas que se prestam a serem usadas, seja por que motivo for, perdem para mim todo o valor a partir desse momento, por isso digo com todo o cinicíssimo e hipocrisia que me são permitidos: ainda bem que alguém se voluntariou para me ajudar a encontrar a housing corporation (português é uma língua muito rebuscada) e a minha casa (e que casa, mas já lá vamos). Amesterdão recebeu-me com nuvens e um muito confuso sistema de transportes, mas depressa descobri que tinha uma nova cor favorita: loiro. Senti-me no lugar certo na altura certa. A ajuda, na verdade, atrapalhou mais do que ajudou, acho que teria chegado aos lugares mais depressa sozinho, mas ainda não sou cínico ao ponto de desprezar por completo a simpatia das pessoas (ainda que esta tenha motivos ulteriores).

Todos os sentimentos de estranheza e atrapalhamento desapareceram quando percebi que a casa que esta a ser limpa ia ser a minha Casa por um ano. A excitação tomou conta de mim e saltei, saltei como saltam as senhoras que ganham carros no Oprah Show. Esqueci-me que a “ajuda” ainda aqui estava e corri pelas divisões, liguei a gritar para casa para ouvir o habitual “ah, tá bem! Que bom para ti!” (whatever). Aquele moderno, amplo e IKEA furnished duplex já era Home para mim. O bom senso que me restava disse-me que devia comer alguma coisa e foi nesse momento que entrou outra pessoa em casa. O habitante do outro quarto tinha acabado de chegar. Eu só pensei: que sorte que tu tens, André; e isto mesmo antes de o conhecer e esse só aumentou a partir daí. Não foi necessário nenhum ice breaker fomos simplesmente às compras.


2 comentários:

  1. A vinda da ida lol tinha que ser esse o nome, right? Antes deste texto devia existir uma referência a uma caixa, uma caixa dos cinheses que até vinha rasgada (cabrao do chinês da loja, aldrabão, mas fez-me desconto, não fosse eu ines-margarida-cheia-de-lata!), preta, forrada com as coisas mais lindas do mundo :) mas a caixa ficou cá, foi o recheio k é o que importa eh eh e a caixa ainda vai. Quem sabe o k lá irá dentro agora?...
    Eu acredito sinceramente que nada é por acaso, a tua Home tava destinada e k os loiros não caem do céu, if u know what i mean ;) a Casa é onde nos sentimos como tal, e por vezes nem é o espaço físico mas toda a "aura" (loooool) que nos rodeia, principalmente as pessoas que ja faziam parte da nossa ilha e nós nem sabiamos. Mas é tao bom ver que essas pessoas vem para ficar. Seja lá isso como for.

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  2. fico tao contente por ti! apesar de n termos falado mt (n por falta de interesse meu, entenda-se, mas pelas circunstancias e dificuldades habituais) vou seguindo a distancia este teu imenso desafio que bem ca dentro admiro e invejo.
    adorei ler aquilo que tinhas para nos contar, faz-me sentir mais proxima snifsnif!
    atrevo-me a dizer que estas bem melhor do que nos aqui. tens um mundo novo so pra ti, nos ficamos ca, neste espacinho onde vivemos tantos momentos bons e maus.

    a ines tem toda a razao. nada acontece por acaso. e se achas que aprendeste algumas liçoes, a tua propria custa, so tens de te sentir orgulhoso por isso. trasnformou-te na pessoa que es agora. noone can take that away from you!

    vou-me deixar de lamechices.
    peço desculpa a falta de acentos e maisuculas (teclado do portatil maluco! para por pontuaçao ja e uma grande trabalheira).
    espero que tenhas gostado do blog que criamos para ti, uma prenda meio egoista: queremos mesmo que escrevas para nos, constantemente! vou tentar esforçar-me e escrever no meu tb. se bem que duvido que tenha muitas historias interessantes pra contar como o teu episodio do penso dos ursinhos xD

    estou ansiosa por ver fotos do teu duplex paradisiaco e do teu roomate com nome esquisito (e ele a andar de bike ctg?)

    ate a proxima

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