terça-feira, 8 de dezembro de 2009

And the Oscar goes to...

Eu sei que crítica de cinema não é um aspecto particular de Amesterdão, mas filmes estão em todo lado e este filme ficou-me na cabeça. Para além disso escrever esta crítica e filosofar um pouco é bem capaz de me fazer evitar bater com a cabeça na parede.



O filme chama-se "The Soloist", não será certamente o filme do século mas ficou preso nos meus pensamentos. O Jamie Foxx está tão extraordinário que nem sequer o reconheci nos primeiros instantes e os temas abordados são da maior importância nos dias de hoje. O conceito do "sonho americano" no qual todos os seres humanos pertencem a uma casa com jardim, um Golden Retriever que brinca com as crianças e amor para toda a eternidade. São estes conceitos que destroem as pessoas à partida ao fazer-nos crer que todos o devemos almejar. O pensamento de que aquilo que é bom para nós tem de ser necessariamente bom para os outros. O que funciona para ti não tem de funcionar para mim. E apesar de muita gente se rever nesse sonho, ele não funciona para todos, e não há nada de errado com essas pessoas. Porque que é que o talento de alguém apenas merece crédito se for aplaudido? Porque é que alguém se sente completo a tocar piano na rua deve ser visto com piores olhos do que aquele que recebe o aplauso de uma plateia?Revolta-me o espírito pseudo-caridoso daqueles que não podendo consertar-se a si mesmo tentam "ajudar" os outros mesmo contra a sua vontade. Será ajudar prender alguém a algo que lhe é estranho só porque condiz mais com esses parâmetros do que consideramos a "normalidade". Ou será ajudar simplesmente estar lá e ouvir o que as pessoas realmente nos têm para dizer em vez de lhes tentarmos impingir qualquer conceito de felicidade que também a nós foi impingido. O Jamie Foxx é um músico que desistiu de Juliard porque não aguentava a pressão ou simplesmente porque não pertencia àquele lugar. E se esse músico se sente realizado ao dar vida às ruas de L.A. com a sua música, porquê força-lo a viver numa casa que ele não deseja e a um estrelato que não suporta. As pessoas não são patologias à espera de serem catalogadas, não há catálogos que cheguem, nem comprimidos que curem todas as pessoas. Diagnóstico, medicação, cura, "normalidade".

2 comentários:

  1. Não gostei do filme, para ser sincera. O ritmo está desacertado, algo não bate certo na sequência, a edição deixa a desejar.

    Ao contrário do que dizes, nao creio que a personagem do Downey Junior quisesse prendê-lo. Queria ajudá-lo, segundo as suas próprias crenças de conforto e felicidade.
    Ajudando-o, o jornalista descobriu-se e deu um sentido novo à sua vida. E, no fim, ele compreende aquilo que falas...O lugar do músico é onde ele gosta de fazer música, naquele túnel onde o som voa com os passaros no céu, enquanto os carros passam.

    Mais do que uma discussão filosófica sobre a normalidade ou o sonho americano (não concordo muito com essa parte, porque o próprio downey não o vive - basta lembrar a cena dos bichos no jardim!), o filme retrata o encontro de duas pessoas e o desabrochar de uma amizade improvável. Enquanto um tenta curar, o outro é curado sem querer.

    A mim desiludiu-me o facto dele não conseguir tocar à frente da plateia. Demonstra que está aleado da realidade humana. E se assim é, a sua felicidade não pode ser plena. E senti a sensação de frustração do jornalista quando é atacado.

    São duas boas interpretações mas não nomearia a fita para um óscar...

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  2. Felicidade plena nao existe, mas ele consegue estabelecer contacto humano e o filme prova-o, simplesmente nao o consegue com uma plateia de pessoas que estao ali para o julgar. E isso compreendo. Para além disso o que é a realidade humana? Essa realidade humana nao pode ser encara como um todo a que devemos pertencer porque sao voltamos aos mesmos padroes de normalidade. Nao acho que uma pessoa seja menos humana por só estabelecer contacto com um numero limitado de outros seres. E apenas mais uma cor no espectro.

    Mas sim concordo com o que disses acerca do encontro de duas pessoas que se acabam por ajudar mutuamente. Apenas nao gosto da tentativa do R.D. Jr de o diagnosticar, dar-lhe um comprimido e pronto já tá tudo resolvido. Mas ele acaba por nao o fazer, anyway.

    Mas sim o filme deixa um pouco a desejar a nivel técnico e nao vai com certeza ganhar o Óscar de melhor filme. Mas o Jamie Foxx vai ganhar por melhor interpretacao (podia apostar um bracinho), é ele que dá vida ao filme, o resto é mediocre (para além do guiao relativamente bem escrito).

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